chefe da sala

votações

– Sabes mãe, estou muito chateado. Hoje, lá na escola, tivemos que escolher o chefe da sala, e ganhou a Leonor.
– Então, e porque é que estás chateado?
– Porque queria ter ganho eu!
– Ganhas noutra altura. Se os teus amigos escolheram a Leonor, tens que respeitar a decisão deles e continuar a ser amigo dela. Para a próxima pode ser que sejas tu o chefe.
– Mas eu tive amigos que votaram em mim, também! E no Matias. E no Gonçalo.
– Ah foi? Então porque é que não se juntaram os três e mandaram a Leonor à fava? Dizias à tua educadora que é o que se faz nos órgãos de soberania nacional e que ela só tinha era que aceitar! E se não aceitar, chamas-lhe reaccionária fascizóide direitolas Leonorocrata, que é fofinho, e dizes que ela não percebe patavina de democracia, que esta história dos votos não é como nos têm feito crer a vida toda, sabes?
– Mas a Leonor teve mais votos e tu ensinaste-me, quando fomos votar, que ganha quem tem mais votos.
– Esquece tudo o que eu te ensinei. Não interessa nada! Reescrevam as regras, que é como fazem os grandes líderes! Aprende uma coisa: as regras do jogo são sempre adaptáveis. Principalmente quando servem os nossos interesses. Não há limites na hora de reclamar o poder. Amanhã, vocês juntam-se, tu, o Matias e o Gonçalo, chegam lá e dizem: “Está na altura dessa betinha da Leonor aceitar a derrota. Nós somos os chefes, eleitos pela maioria dos meninos do pré-escolar.”
– Mas o Matias rouba-me os carrinhos…
– Mas agora vai deixar de roubar os teus, e vai passar a roubar só os dos outros.
– E o Gonçalo tira macacos do nariz e cola nas mesas.
– Não interessa! Vocês vão ser os chefes. Podem colar os macacos que quiserem, onde quiserem, e ainda pôr as culpas na Leonor, que era o que ela faria convosco se fosse a chefe.
– Ah é?
– Claro! Não sejam totós! Juntem-se e o poder será vosso. Controlarão um jardim de infância inteiro! Muahahahah! (riso maquiavélico) E o que é que um chefe de sala faz, já agora?
– Hum… Marca os meninos que faltam no mapa das presenças, põe as mesas à hora de almoço, vê se as sanitas ficaram limpas e se nenhum menino se esqueceu de puxar o autoclismo ou deixou torneiras abertas, e faz o Pim-Pam-Pum.
– Ah. Faz o Pim-Pam-Pum… Então e o que é que acham de cobrar uma taxa cada vez que os meninos da sala quiserem usar as canetas de cor? E uma coima para quem tiver ranho no nariz? E vender rifas para sortear uma caixa de lápis de cor Faber-Castell, mas cujos vencedores serão, na verdade, vocês os três? E podiam instituir as Segundas-Domingo, como fazemos cá em casa, em que ninguém vai à escola, e assim todos esquecem as coimas e taxas e votam em vocês na próxima semana!
E é assim que se educam as crianças para sobreviver e compreender aquilo que as espera no mundo dos adultos. E na política, em geral.

(Mentira. Preferia cortar os pulsos. Esta conversa terminou na minha segunda fala. Juro)

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