Carta a uma bully

carta a um bully

Estas palavras são para ti, bully. É assim que os teóricos refinados gostam de te chamar, porque para mim, não passas de uma besta quadrada, uma acéfala cobarde, uma sociopata em ascensão. Sim, para mim, não há cá estrangeirismo pomposo ou atenuante daquilo que verdadeiramente és. Aliás, na altura em que me apareceste à frente nem se falava em bullying.
Lembras-te da primeira vez que me viste? Aposto que não. Eu era só mais uma formiga entre tantas a esmagares. Mas eu lembro-me da primeira vez que te vi. Tinha onze anos, querida bully. A mochila era quase maior que eu, garota franzina, quase um terço de ti. Tu nem andavas na escola. Eras “lá de fora”. Uma wildling do outro lado da muralha, cujo propósito era aterrorizar os mais fracos.
Lembro-me que saía para almoçar com uma amiga quando tu nos barraste o caminho e ficaste parada à nossa frente, com a postura de um segurança de discoteca. Depressa os miúdos se reuniram em torno de nós, sedentos de sangue. Fiquei a saber que um amigo teu tinha-te chamado para me dares uma lição, por eu não o ter deixado passar à minha frente na fila do refeitório. E porque lhe tinha respondido. E porque me esquecera de baixar os olhos quando falava com ele. Sim, devia ser por todos esses motivos. Afinal, todos eles são válidos para se dar uma lição a uma miúda. Quando ouvi a tua voz enrouquecida e gutural, garanto que vi um troll à minha frente. Na altura, ainda não tinham criado o Shrek, mas eu garanto que ele foi inspirado em ti, cara bully. Começaste a andar na nossa direcção e a empurrar-me com a barriga (sim, eras corpulenta. Lá está a inevitável comparação) ao mesmo tempo que me fazias perguntas intimidatórias como por exemplo “Meteste-te com o meu amigo? Queres levar uns badanos? Desfaço-te essa cara. Blá blá blá…”. Eu nem ouvi metade do que disseste porque estava ocupada a procurar uma brecha no meio da multidão que nos permitisse escapar quando a tua oratória passasse para a acção. Ao meu lado, a minha amiga, que já tinha levado um puxão de cabelos teu, agarrara-se ao meu braço como se eu tivesse o poder de nos salvar de ti, mas mal se apercebendo que aquilo nos dificultava tanto a fuga como uma possível defesa.
Quando me deste um empurrão no ombro, reagi instantaneamente. Sem pensar nas consequências, empinei-me para ti em bicos de pés, levantei o indicador insolente e espetei-o no teu peito insuflado. Mesmo com a voz trémula, garanti-te que não te temia, nem ao teu corpanzil de lutadora wrestling e ordenei-te que me deixasses em paz. Grande aldrabona, claro, porque estava completamente acagaçada. Ao que pareceu, a minha reacção enfureceu-te ainda mais (talvez também te tenha chamada um nome ou outro que me esteja a escapar agora). Então, retesei o corpo e preparei-me para o estaladão que o meu rosto receberia em breve. Seria uma estreia – nunca na vida recebera uma estalada. Foi quando a brecha na multidão apareceu e aproveitei a oportunidade para escapar, puxando alguém atrás de mim e correndo como dois foguetes de mochila às costas.
Para meu desgosto, encontrei-te anos mais tarde, no liceu, retida num nono ano que nunca mais concluías. Parecia que preferias andar ali, a aterrorizar mais uns adolescentes o máximo de tempo que pudesses. Não te lembravas de mim, e apesar de eu me lembrar de ti, agora já não me metias tanto medo.
O teu novo alvo era aquele rapaz tímido que andava sempre sozinho e a quem todos roubavam dinheiro no intervalo. Aquele cromo que ninguém sabia o nome e que servia apenas de bobo da corte quando algum pavão queria exibir a sua bestialidade em público. Uma vez despejaram-lhe o almoço na cabeça e todo o refeitório se ficou a rir. Numa outra, fizeram-lhe uma rasteira no pátio que o fez andar de muletas um mês inteiro. E daquela vez em que tu e o teu grupo o seguiram à saída das aulas, arrastaram-no para um beco, e deram-lhe uma sova apenas porque ele se recusou a entregar-vos a semanada? Lembras-te? Lembras-te que ele nunca mais apareceu na escola, depois disso? Gostava de saber o que sentiste ao agredires de forma tão cobarde alguém que nunca te fez mal. Alguém que não tinha como se defender. Alguém que estava sozinho e indefeso. Gostava de saber… O que te move? O que te vai na mente quando esmurras alguém que te implora que pares? Lembras-te do nome dele, sequer? Porque eu lembro-me. Ele era da minha turma. Trocávamos apontamentos, às vezes ele ia comigo a pé quando eu perdia o autocarro, e uma vez emprestou-me dinheiro para o almoço. Daquela vez em que não vos deu o resto da semanada, sabes? Eu não me ri quando lhe espalharam puré na cabeça, nem quando o vi cair no pátio, nem quando ele deixou de aparecer na escola. Depois do ocorrido, tive que me conter para não te mandar o tabuleiro do almoço à cara quando passaste por mim toda sorridente. E ainda hoje me arrependo de não ter interferido, de não o ter tentado puxar para longe de vocês, como naquele dia em que me intimidaste, era eu uma garota franzina. No dia em que me livrei de ti, sabes? Não, não foi quando fugi da roda. Foi quando te fiz frente, quando te apontei dedo, quando te olhei nos olhos e marquei a minha posição. Porque tu, bully, alimentas-te dos fracos, do medo e da inação das tuas vítimas e da indiferença dos outros que, calados, assistem aos teus actos. Quando um dia todos se colocarem em bicos de pés, te olharem sem medo e te apontarem o dedo, tu desapareces com a mesma rapidez com que sacas trocos nos intervalos das aulas e roubas enunciados de teste aos professores. Então, nessa altura, num raro momento de lucidez e bom senso, pode ser que tenhas a capacidade de escolher ser mais e melhor do que aquilo que tens sido.

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