Caminhar sozinho

Dia dos irmãos

O ano passado matriculei-o. Ele não entrou porque era “condicional” apenas por um dia.
Este ano matriculei os dois. Ela não entrou, por ser “condicional” por uma semana.
Eles estão juntos quase desde sempre. Qualquer pessoa diria desde que ele tinha um ano, mas eu digo que estão juntos desde os seus três meses de vida – altura em que ela, com pressa de se juntar ao irmão, passou a viver na minha barriga.
Eles estão juntos desde que ele pousava a cabeça no meu ventre, mesmo sem perceber que ela lá estava a crescer, feliz, ao som da sua voz. Estão juntos desde que o transportava na minha anca ao mesmo tempo que escolhia almofadas cor de rosa para o quarto da irmã e a sentia dar-me pontapés de contentamento ao ouvi-lo a imitar o Faísca McQueen.
Eles estão juntos desde sempre, a aprender em conjunto, a caminhar, a brincar, a rir, a respeitar, a amar, a serem irmãos, a serem família, a serem os melhores amigos… Entraram juntos no primeiro dia pela porta do infantário, fizeram os mesmos amigos, partilharam a mesma sala e o carinho das suas educadoras. Ele cresceu a ensinar-lhe o nome de todos os dinossauros, a jogar vídeo jogos, a pronunciar palavras difíceis como “paleontólogo” ou “Cartoon Network”, a incutir-lhe o humor peculiar e irresistível dos rapazes. Ela cresceu a cuidar dele. “Come tudo!”, diz-lhe na hora do almoço. “Não te esqueças de acabar o teu trabalho!”, aconselhava-o no infantário quando ele preferia brincar com os legos em vez de pintar. “Vai buscar o teu casaco!”, lembrava-o na hora de ir embora para casa.
Todos devemos saber caminhar sozinhos. Eu sei. Mas como mãe, gosto de saber que eles têm feito a caminhada juntos, lado a lado, a trilhar o mesmo caminho. Até amanhã. Amanhã, ele vai iniciar uma nova aventura, ao caminhar sozinho. E não a terá lá, com ele, para o lembrar de comer, de trazer o casaco ou apenas para abraçá-lo e fazer sorrir quando ele estiver chateado com a vida. Amanhã, ele vai começar a aprender a enfrentar as adversidade num novo patamar de autonomia e solidão, e isso não é necessariamente mau. No final do dia, ele vai continuar a gozar com ela por ela dizer “Catoon Neclac” em vez de “Cartoon Network”. Ela, vai continuar a teimar que ele tem de aprender a fazer melhor caras, telhados e cãezinhos nos desenhos e vai andar a persegui-lo com folhas de papel e lápis de cera enquanto ele lhe chama chata e reclama o seu direito a brincar ao parque jurássico.
Mas vocês já os conhecem. São as minhas personagens preferidas, de todas as que povoam e povoarão as minhas histórias.
O Salvador e a Maria Luísa.
E eu sou uma mãe que repete para si mesma, vezes sem conta: tudo vai correr bem. Tudo vai correr bem.

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