“Bilhetes para a sessão das 15.30, por favor.”

Sessao das 15e30 - cinema

Ia eu a caminhar pela avenida do centro comercial, quando de repente fiquei em transe com o cheiro a croissants acabadinhos de sair do forno. Lembrei-me que no século passado, aquele era um aroma familiar e provinha de um ponto de paragem obrigatório na minha infância. Então entrei e deliciei-me com um croissant de chocolate quente que me fez viajar no tempo.

Voltei a ter doze anos. Voltei a correr de mochila às costas, naquela maratona frenética desde a escola até ao centro comercial. Parávamos ofegantes em frente ao guiché, inclinando o corpo para a frente para não cairmos para trás com o peso dos livros e a exaustão da corrida. “Bilhetes para a sessão das 15.30, por favor.” – não era preciso mencionar o filme, porque só havia aquele, àquela hora. Lá ele os empurrava por baixo do vidrinho que o separava de nós e depois caminhava vagarosamente para o bar, para nos vender as gulodices da praxe. Com a indisciplina típica da idade, falávamos todos ao mesmo tempo, atropelando-nos nos pedidos até ele bater com a mão no balcão e nos gritar que ou nos acalmávamos ou ele não vendia pastilhas nem pipocas a ninguém. “Gaiatos dum cabrão…” praguejava entredentes enquanto punha as pipocas para dentro do saco de papel, fazendo-nos rir baixinho, divertidos com o seu mau feitio. Só depois de devidamente apetrechados com tudo o que era vital para se ver um filme, nos abria a porta e recebia os bilhetes que dois minutos antes nos vendera. Depois fechava as portas, ralhava connosco caso fizéssemos barulho e lá subia para a salinha mágica onde punha a fita a rolar. As cortinas abriam-se para revelar a enorme tela branca ao mesmo tempo que se ouviam as badaladas míticas que tanto me assustavam quando era mais pequena.

No intervalo do filme, havia sempre tempo para mais uma corrida até à croissanteria, para comprar um croissant e um Compal para o lanche (nesta altura era uma trinca espinhas que podia comer muitas parvoíces). Apesar da nossa urgência em sermos atendidos com rapidez, as donas faziam-no com um vagar que me fazia bater o pé e tamborilar nervosamente os dedos no balcão, com medo que a segunda parte começasse sem nós. Hoje, acho que elas sabiam que enquanto não estivéssemos lá todos, o Sr. Faz Tudo não punha o filme a rodar. Ele esperaria que todos os “gaiatos dum cabrão” estivessem devidamente sentados nos seus lugares para continuarem a usufruir da magia da sétima arte, na sua sala favorita. A sala onde me apaixonei pela indústria rei de Hollywood. A sala onde vi o “Rei Leão” pela primeira vez, onde chorei baba e ranho com o “Titanic”, onde vivi o cliché das negas de adolescência ao fugir com a mão a alguém que me queria dar a sua, e foi ali que vi o primeiro filme com aquele que viria a ser meu namorado – foi uma sorte a coisa ter corrido bem depois de gramarmos com “O Tigre e o Dragão”.

O meu delírio terminou quando olhei para os expositores vazios e degradados do cinema e notei a ausência dos putos chatos do ciclo a empurrarem-se ao balcão da croissanteria. Felizmente, essa, ainda continua viva e a massa permanece deliciosa, como sempre foi.
Quanto à velha sala abandonada no fundo do centro comercial, nunca mais passei lá à porta, mas gosto de imaginar que ainda se ouvem os ecos do passado, no seu interior.

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