“Bicho-mãe”

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Momentos depois do meu filho nascer, e ainda na sala de partos, uma jovem enfermeira de sorriso terno colocou-o ao meu lado e perguntou-me se eu queria experimentar a pega e começar já amamentá-lo. Exausta ou não, aquilo era tudo o que tinha desejado ouvir. Eu não queria dormir, nem descansar, nem precisava de tempo algum para assimilar tudo o que acabara de me acontecer. Eu queria era ter o meu bebé nos braços, sentir o seu cheiro, ouvi-lo respirar, aquecê-lo com o toque e calor da minha pele e alimentá-lo, como o “bicho-mãe” que acabava de me tornar.
“O ideal é que o bebé seja colocado no peito quase imediatamente depois de nascer”, foram as palavras da enfermeira que me dera a preparação para o parto. Eu retivera-as religiosamente, idealizara aquele momento – mais que qualquer outro – e fiquei radiante por me ter sido dada essa oportunidade, imediatamente após a sua chegada a este mundo.
A pega foi quase instantânea. Apesar de toda a informação que eu absorvera ao longo da gravidez, de todas as dicas e instruções sobre posicionamento, naquele momento foi o instinto que funcionou em toda a sua magnitude. A sensação foi indescritível. Não houve drama, nem dores, nem dúvidas. Quando as enfermeiras entravam no quarto convencidas de que talvez eu precisasse de ajuda com a amamentação, já eu estava de bebé ao peito, feliz da vida, convencida de que aquilo era canja. E só se tornava cada vez mais especial, à medida que o tempo ia passando.
E o tempo passou…
E numa ida ao pediatra, no segundo mês de vida do bebé, constatámos que não só não estava a engordar, como começava a perder peso, significativamente. Mesmo que nenhuma mãe queira ficar ansiosa e se esforce por manter a calma, essa é quase uma missão impossível quando sentes que a tua cria não está bem alimentada nem a crescer como era suposto.
“Vamos aguardar e continuar com a mama. Mas se dentro de duas semanas ele não engordar nada e continuar a emagrecer, teremos que recorrer ao plano B.” – disse o médico.
Plano B?! Plano B?!!! Eu não queria nenhum plano B! Eu queria amamentar o meu filho, queria ser suficiente para ele, queria vê-lo crescer forte e saudável com o que a natureza me providenciara, e quase rosnei quando ouvi a palavra “suplemento”. Mas os dias passavam, as bochechas iam desaparecendo a olhos visto, ele procurava por um leite que teimava em não saciá-lo e senti-me atraiçoada pela natureza, que em nada me ajudou a escapar ao plano B. Tinha um bebé com fome, e nenhum ideal ou convicção – que eu tivera até àquele momento, sobre amamentação – se sobreporiam à minha urgência em alimentá-lo e vê-lo crescer.
Lembro-me do dia em que comprámos o maldito suplemento e o malvado do biberão. Assim que chegámos a casa com o saco da farmácia, o Indy foi aquecer água para preparar o leite, mal sabendo todo o dramalhão que se adensava, silenciosamente, dentro de mim. Juro que na altura, foi com raiva e frustração que olhei para a lata de leite e para o biberão, pousados na bancada da cozinha, prontos a competirem comigo nessa demanda de alimentar o meu filho. Aquela tarefa era minha, e não deles! E foi tomada por essa raiva e frustração que tive um ridículo e monumental ataque de choro repentino, apanhando-o de surpresa. O meu lado racional e coerente dizia-me que era um disparate estar assim, mas o meu lado mais emocional, que se sobrepunha a qualquer raciocínio lógico ultimamente, fazia-me sentir uma incapaz. Sentia que tinha falhado no meu papel de mãe, na minha missão de providenciar à minha cria o que ela precisava e que era o meu leite, e apenas o meu leite. Sentia que não fora suficiente, não fora capaz, que talvez até estivesse a errar ao ceder ao plano B. Mas não aguentava mais vê-lo passar fome e emagrecer. Continuar a remar contra a maré e a seguir convicções que estavam a prejudicar o meu bebé, não faria de mim uma boa mãe. Teimosa, talvez. Fundamentalista, ainda mais, e isso era coisa que eu nunca fora e de certeza que não o seria agora, quando o que estava em causa era o bem-estar do meu tesouro mais precioso. Continuaria a dar o meu leite, sim, mas sabia que o método complementar levaria ao princípio do fim daquela fase tão maravilhosa que é a amamentação e que eu idealizara prolongar o máximo tempo que conseguisse.
A culpa e as inquietações depressa se desvaneceram com um pouco de colo do pai da criança e com a sua hilariante exposição acerca das maravilhas da natureza no que toca às insubstituíveis e valiosas maminhas, ao mesmo tempo que achincalhava o vilão leite em pó, ao qual, infelizmente, teríamos que nos aliar por agora. Fez-me rir e sentir menos mal, e depois fez questão de dar o primeiro biberão ao nosso filho. Tanto tempo a sentir-se excluído na hora da refeição e agora, finalmente, podia alimentar o seu menino e olhar e falar para ele enquanto o alimentava. No fim, até me deu gozo testemunhar aquele momento entre os meus rapazes.

Com o tempo, as bochechas reapareceram e ele já abanava as pernas de contentamento quando via o biberão – ofensa gravíssima cometida contra a sua mãe. Um ultraje! Nunca iria conformar-me por ter sido substituída por uma garrafa de plástico com tetina! Mas isso também foi uma valiosa lição acerca da maternidade. Amamentar é um acto de amor, mas reconhecermos as nossas limitações e adaptarmo-nos às necessidades do bebé, mesmo que para isso tenhamos que contrariar as ideologias que acolhemos convictamente, também. E nenhuma mãe deve ser julgada por isso, se afinal todas se regem pelo amor que sentem pelos filhos. Atrevo-me inclusive a afirmar que uma mãe revela a sua capacidade de o ser e toda a dimensão do seu amor, é com o passar dos anos. A amamentação é apenas um começo, mas não é obrigatória e nem todas têm que passar por ela para serem melhores mães.

Como diz – e sabiamente – a Miriam do blog Menina Mundo: “Ser mãe é tão mais do que amamentar. O essencial é amar o seu bebé, trazê-lo nos braços e com ele a vontade de dar o melhor de nós, a cada dia: isso vai muito para lá de amamentar; e nisto estaremos todas – amamentando ou não – juntas. E é por isso que será sempre muito mais o que nos une: somos mães.”

Eu não podia estar mais de acordo com ela.

Senti e sinto saudades dessa experiência que guardo, ainda hoje, como uma das mais incríveis e inesquecíveis da minha vida. Mal sabia eu que dez meses depois de ter chorado baba e ranho por encerrar o ciclo do aleitamento materno, estaria a passar por tudo, novamente. E surpresa das surpresas, nada foi como da primeira vez. Da segunda houve dores tortas (insuportáveis), fissuras no peito, mastites, uma bebé sôfrega, eu a pensar que não ia aguentar aquilo durante muito mais tempo. Mas aguentei. E voltou a ser formidável. Mas se não tivesse aguentado, sei que continuaria a amá-la incondicionalmente.
Cada bebé é um mundo novo, e é sempre uma nova aventura que se inicia. Só uma coisa se repetiu: as emoções em mim, no momento em que a recebi nos braços pela primeira vez…
Uma vez mais, não sentia necessidade de dormir, de descansar, nem de assimilar tudo o que acabara de me acontecer. Eu só queria segurar a minha bebé, sentir o seu cheiro, ouvi-la respirar, aquecê-la com o toque e calor da minha pele, e alimentá-la, como o “bicho mãe” que surgia em mim uma vez mais. E no meio de tudo isso ainda lhe sussurraria um “Olá. Bem-vinda a este mundo louco. Sou a tua mãe e vou amar-te, para sempre.”adorable-babe-babies-baby-Favim.com-3104008

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4 Comments

  1. Querida Marta, eu estava certa da mais-valia do teu testemunho, e é tanto o que nos une quando descreves o primeiro momento, o pegar nos braços, a primeira pega, a sua espontaneidade e naturalidade e sim, concordo contigo, no momento foi só emoção mesmo sabendo ‘toda a informação que eu absorvera ao longo da gravidez, de todas as dicas e instruções sobre posicionamento, naquele momento foi o instinto que funcionou em toda a sua magnitude. A sensação foi indescritível. Não houve drama, nem dores, nem dúvidas. Quando as enfermeiras entravam no quarto convencidas de que talvez eu precisasse de ajuda com a amamentação, já eu estava de bebé ao peito, feliz da vida, convencida de que aquilo era canja. E só se tornava cada vez mais especial, à medida que o tempo ia passando’. Estiveste comigo, viste como o vivi, sentiste com o meu coração, choraste com os meus olhos (de felicidade).
    Eu não vi as bochechas da Mia desaparecerem, cresceram e cresceram em 6 meses de amamentação em exclusivo, mas consegui sentir o que seria ver as bochechas do teu pequenino desaparecem, consegui sentir essa angústia, consegui perceber que o plano que tinhas não incluía plano B.
    O aconchego do colo do pai da criança e a forma como o descreveste roubaram-me umas gargalhadas, que bom sentir que te libertaste desse sentir incapaz, menos mãe, menos.
    E arrepiei-me quando li: ‘Mal sabia eu que dez meses depois de ter chorado baba e ranho por encerrar o ciclo do aleitamento materno, estaria a passar por tudo, novamente. E surpresa das surpresas, nada foi como da primeira vez. Da segunda houve dores tortas (insuportáveis), fissuras no peito, mastites, uma bebé sôfrega, eu a pensar que não ia aguentar aquilo durante muito mais tempo. Mas aguentei. E voltou a ser formidável. Mas se não tivesse aguentado, sei que continuaria a amá-la incondicionalmente.
    Cada bebé é um mundo novo, e é sempre uma nova aventura que se inicia. Só uma coisa se repetiu: as emoções em mim, no momento em que a recebi nos braços pela primeira vez… É isso, está tudo aí.
    Obrigada por esta partilha, por este contributo, por esta ligação que criamos com este tema (pouco fácil).
    Um abraço, dos apertados.

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  2. Obrigada, querida Miriam. Já o disse e volto a repetir: deu-me um grande gozo responder ao teu desafio, reviver as minhas próprias memórias, e poder partilhá-las contigo e com outras mulheres. Fico feliz que tantas se tenham identificado e que tenhamos descoberto, com esta partilha, o tanto que nos une. Um beijinho e abraço bem apertado.

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  3. Marta, quase todas as mães são crucificadas e elas proprias se cricificam.. não é fácil.. para mim foi DIFICIL, verdadeiramente difícil o início. O que mais desejava era ter sentido o meu bebé no meu peito mal nasceu, não sei como é… sonhei com esse momento… hoje imagino como seria, só imagino, porque ele nasceu, vi-o uns segundos. Toquei-lhe e levaram–o de mim.. não dei de mamar, demorei dias até ter leite, esforcei-me muito ligada à máquina, de 3 em 3 horas lá ia eu. Sofri, tive dores, chorei e respirei fundo cada vez que tinha que carregar no botão da máquina. Muitas vezes passados 15/20 min só tinha uma gotinha de leite que nem caira da mama. Os dias passaram e o leite subiu (nem senti!) E só passados 5 dias ele mamou no meu peito. Medo.. passavam tantos “ses” na minha cabeça…mas ele mamou mal sentiu a mama! Alegria das alegrias! Que emoção! Adorei… passados 2 meses pouco engordara. E eu também ouvi a palavra “suplemento” em lágrimas… mas um bebé prematuro, nao podia arriscar! Comprei o leite e senti tudo que sentiste… consegui dar de mamar até aos 10 meses, acompanhado de sumplemento, que ele nem sempre queria… deixei quando ele deixou de querer! Mesmo assim vale a pena. Mas nenhuma mãe pode ser classificada por dar de mamar, ou dar leite adaptado.. beijinhos

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    • Querida Rabiscos, foi com o coração apertado que li as tuas palavras…”ele nasceu, vi-o uns segundos. Toquei-lhe e levaram–o de mim.. não dei de mamar, demorei dias até ter leite”. Não imagino a dor que é querermos o nosso bebé debaixo da nossa asa, e não nos ser permitido. Felizmente contrariaste a regra e não só conseguiste que ele pegasse na mama passados cinco dias, como venceste a corrida com o suplemento (é difícil conciliar os dois). Obrigada pela generosidade de teres partilhado, aqui, a tua experiência. :) Beijinhos

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