As postas de bacalhau

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Há uns anos que tentamos alimentar uma tradição de amigos de sempre, em que todos os Dezembros partimos para a Beira Interior, para o nosso fim-de-semana especial de Natal, em busca de sossego, ar puro, frio serrano congela ossos, serões à lareira, cheiro a fumeiro no cabelo, jogos parvos e infantis, “filosóficas” conversas pela madrugada fora, gargalhadas de perder o fôlego e leves dores de cabeça na manhã seguinte – dependendo das misturas que se fez na noite anterior. Basicamente, traduz-se na necessidade de um grupo de adultos esquecer-se que o é, durante três dias – exercício que começa logo após deixarmos os rebentos e o cão no seu parque de diversões favorito, comumente conhecido por “Casa dos avós”. E como sabe bem viajar com amigos! Partilhar o carro (que fica a parecer um autocarro de excursão), ameaçar deixar bagagem em terra por não caber tudo no porta bagagens, ouvir as discussões no banco de trás por irem todos muito apertados, implicar com a playlist do condutor, parar mil vezes em áreas de serviço para cafés e idas à casa de banho… No entanto, as minhas dores de cabeça começaram muito antes de partirmos à aventura, mais precisamente no momento em que estávamos a abastecer o depósito e recebo uma chamada da minha mãe. Ao atender, reparo na gravidade na sua voz, e fico imediatamente com o coração nas mãos a pensar o que se terá passado com as minhas crianças.
– É só para te dizer que só cá está há vinte minutos, e já nos roubou o almoço.
Fico calada por um instante, tentando perceber o que me está a dizer e não querendo acreditar na hipótese de ser o que penso que é.
– An… O quê? – pergunto, num balbúcio nervoso, pedindo por tudo que não seja o que estou a pensar.
– Eu só saí cinco minutos com os meninos. Cinco minutos! E quando regressei, para fazer o almoço, constatei que as três postas de bacalhau especial todo xpto que o teu pai tinha escolhido rigorosamente para assar no forno, tinham desaparecido do lava-loiça!
Arregalei o olhos, em choque, e completamente muda.
– O teu cão comeu-as! Aspirou-as! Inteiras!
Senti a cara aquecer e não me ocorreu nada de inteligente para dizer, sem ser um suspiro pesado de profunda vergonha, diante dos rostos intrigados que escutavam a conversa dentro do carro.
– Sacana dum raio… – lastimei-me, baixinho, pensando numa série de nomes obscenos e bem piores para lhe chamar – Desculpem! Eu compro-vos um bacalhau inteiro! O melhor que houver na loja!
– Estás tonta?! Não queremos um bacalhau! Queremos é que ele não fique com as espinhas entaladas nalgum sítio! – exclamou, aflita, e relembrando-me de algo bem pior que ficarem sem almoço. – Oh, não…
– O que foi? – perguntei de imediato, temendo o alarme na sua voz.
– Ele está… a vomitar! Está a vomitar o bacalhau todo. No meu tapete da sala!
Bati com a cabeça no tablier, e tapei-a com o braço.
– Vejam se vomita as espinhas.
– Sim… Sim, está a vomitar tudo.
Do outro lado, oiço ao longe um urro estridente e prolongado. Não de um cão a vomitar, mas de uma pessoa, em sofrimento. “Meu rico bacalhau!”. É o meu pai. Em óbvia agonia.
Não consegui evitar rir-me, mesmo que baixinho e morta de constrangimento. Nem vinte minutos tinham passado e Dom Baltazar Chumbito conseguira arruinar um almoço e um tapete mais depressa que nós tínhamos abastecido.
Enfim… Posso dizer que mais tarde, pelo caminho, descobri um restaurante em Pombal que serve umas postas de bacalhau frito, de comer e chorar por mais. E não, não enviei ao meu pai uma fotografia a dizer “Deixa lá, eu como por ti!”. Há assuntos com os quais não se brinca!
(Mas foi apenas porque me esqueci de o fazer assim que chegou a sobremesa)

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