“Podemos emprestar-lhes o Baltazar?”

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Era 1h da manhã quando fui para a cama, mas um minuto depois de me ter deitado ouvi uma porta abrir. Aqui, já todos sabem que o Baltazar não prima pela valentia a espantar ladrões ou criaturas tenebrosas da noite, por isso tive que me levantar para ver o que se passava. No escuro do hall, ele permaneceu deitado, roncando com a graciosidade de um suíno – aliás, como sempre. Como todas as portas se encontravam fechadas, e ele não manifestava sombra de apreensão, voltei para o quarto. Mas assim que voltei a deitar-me, voltei a ouvir barulho numa porta. Intrigada, dirigi-me novamente ao hall, e pé ante pé, passei por cima do roncador mor e abri a porta do quarto dela. Assustei-me quando a encontrei parada em frente à porta, com um ar atarantado, agarrada ao cãozinho e à ovelha que dormem com ela.
– O que estás aqui a fazer, filha?
– Ia levantar-me.
– Para quê?
– Para o Dia do Pijama.
– Mas ainda é de noite. Muito de noite. Ainda falta muito para o sol nascer!
Ela coçou os olhos, parecendo desiludida.
– Faltam muitos dias para o Dia do Pijama?
Ri-me.
– Não. Faltam apenas umas horas. Mas temos que esperar que a noite passe. E para isso, temos que dormir.
Peguei nela ao colo e coloquei-a na cama. Tapei-a e deitei-me ao seu lado, afagando-lhe o cabelo.
– Mas eu gosto tanto do Dia do Pijama!
– Eu sei, mas já falta pouco.
– Sabes porque é que eu gosto? Porque é muito confortável. Eu adoro andar de pijama em casa e acho muito giro ir assim para a escola, também!
– E sabes porque é que vocês comemoram o Dia do Pijama?
– Não…
– Para se lembrarem de todos os meninos que não podem andar de pijama em casa.
– Há meninos que não podem andar de pijama em casa?
– Sim. Porque não têm uma casa. Ou melhor, têm, mas não é como a nossa. É uma casa muito grande, com muita gente, muitos meninos e muitas senhoras para cuidar deles. Como na tua escola.
– Porquê? Eles não têm mãe?
A pergunta era desconfortável, mas achei que lhe devia dar uma resposta simples e concisa.
– Não.
Então ela abriu a boca franziu o sobrolho, como se estivesse a ouvir uma das coisas mais chocantes de sempre.
– Não têm uma mãe para os tapar de noite?!
Abanei a cabeça.
– E quem lhes dá beijinhos e conta histórias?
– Não sei. Acho que alguma dessas senhoras que cuidam deles… – respondi, com um nó na garganta, e na esperança de estar certa. – Mas é por isso que se comemora o Dia do Pijama. Para nos lembrarmos que todos os meninos devem ter uma família e uma casa, onde crescer. Uma casa com muitas gargalhadas, muitas conversas, com fotografias felizes nas paredes, com cheiro a biscoitos de canela no ar, com pijamas quentinhos, com alguém que os tape e conte histórias, e um cão que ressona muito alto…
Ela sorriu, ainda assim com uma ténue preocupação no olhar.
– Achas que lhes podemos emprestar o Baltazar? Aos meninos sem casa?
– Acho.
– Mas só por um bocadinho. Para eles se sentirem felizes. Eu sinto-me feliz, quando lhe dou abraços.
– E eles também se iam sentir, querida…
– Queria que todos os meninos do mundo tivessem uma casa como a nossa. E um Baltazar. E uma mãe, como eu tenho.
Abraçou-me com força. Depois fechou os olhos e virou-se para o lado, agarrada ao cãozinho e à ovelha, no conforto e segurança que todos os meninos deviam ter.

Em Portugal, existem mais de 8000 “crianças invisíveis” que vivem separadas dos pais, em instituições. O objectivo da “Missão Pijama” é sensibilizar para o direito de uma criança crescer numa família. Noutros países europeus, como Inglaterra ou França, a maior parte das crianças vive num ambiente familiar. Em Portugal são apenas 4%.
Espero, sinceramente, que o passo que se deu hoje em Portugal contribua efectivamente para a redução de crianças institucionalizadas e carentes de um lar e de uma família que as ame, como elas merecem. Incontestavelmente.

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