A Manhã Negra

Torre Eiffel1

Parte 4

Tinha quinze anos. Combinara tomar o pequeno-almoço com a minha avó antes de ir para a escola e a única coisa que me preocupava nessa manhã era não chegar atrasada ao teste de História. Lembrava-me bem da azáfama no interior da pastelaria, da clientela apressada e impaciente ansiando por um café como se a sua vida dependesse disso. Lembrava-me que quando comecei a atravessar o mar de gente para ir ao encontro da avó Nini, à minha espera na sala envidraçada do fundo, me detive com o grito de um homem ao balcão cujo café tinha sido derramado pelo empregado. Foi a discussão entre os dois que me fez irar a cabeça e reparar nas gritantes letras de “Notícia de Última Hora” no televisor acima das suas cabeças.
Confusa e tentando perceber se as imagens que me passavam diante dos olhos eram realidade ou pura ficção, olhei em redor, procurando a mesma dúvida em outros rostos, mas ninguém mais via o mesmo que eu. Estavam todos demasiado ocupados com a querela sobre as calças sujas de café ou a pedir o pequeno-almoço. Demasiado alheados para se aperceberem do terror um pouco acima do seu campo de visão. No mesmo instante entrou um homem esbaforido, pastelaria adentro, a gritar: “É o fim! Estão a atacar-nos! Estão a atacar a Europa!”
Lembrava-me bem das cabeças a virarem-se todas na direcção do televisor, da aflição do empregado para aumentar o som, de como a azáfama foi substituída por um silêncio sepulcral, e do som de uma chávena a cair no chão acompanhado da exclamação de horror de uma mulher ao meu lado.
As mesmas imagens passavam uma e outra vez, para que não restassem dúvidas que aquilo estava mesmo a acontecer.
As imponentes colunas das emblemáticas Portas de Brandemburgo, símbolo da União da Alemanha, despedaçavam-se numa violenta onda de choque, atingindo fatalmente um autocarro de turistas e alguns transeuntes presentes no local. A famosa quadriga que o coroava, testemunha de festejos, manifestações e paradas militares, e outrora tomada como troféu de guerra por Napoleão Bonaparte, jazia agora por entre os escombros na Pariser Platz, num cenário devastador que me custava a acreditar que fosse real. Mas o horror parecia não cessar, pois exactamente à mesma hora, também o coração de Paris era cruelmente atingido, deixando o mundo em choque. Como num quadro apocalíptico e surreal, a icónica torre treliça de Gustave Eiffel, com mais de trezentos metros de altura, quebrava-se em duas, curvando-se aos pés de Champ de Mars, derrotada e humilhada numa imagem tão dantesca quanto inesquecível.
Senti a mão da minha avó pousar-me no ombro e ouvi-a sussurrar atrás de mim “Pronto. Começou”. A falta de surpresa na sua voz chocou-me ainda mais. Naquele momento percebi que nada do que eu julgara certo ou seguro o era de facto. Para mim, a Manhã Negra representou o fim da inocência, da ingenuidade, o romper a bolha de segurança em que julgava viver, alheada da realidade que me rodeava.
Conseguia sentir-se o estarrecimento no ar. Depois daquilo, ninguém mais pediu café. As calças sujas do cliente perderam a importância. Ninguém mais se lembrou do quanto estava atrasado para o trabalho, das reuniões importantes, dos compromissos inadiáveis desse dia, dos planos para essa noite… A consternação era geral naquela manhã de Fevereiro em que assistimos em directo ao despontar de uma nova era. Uma era em que a Europa tentava sobreviver a si própria, e aos egos que a governavam.

Continuação

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2 Comments

    • Hum… Isso é bom ou mau? :) Bem, provocar qualquer reacção que seja no leitor é sempre bom. Vou interpretá-lo como um sinal positivo. 😉 E prometo-te futuros arrepios, quando isto estiver pronto, um dia. 😛 (e espero não falhar)

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