2015 – O corte

foi só um cortesinho

Não sou mulher de dietas (nunca me hão-de ver pagar para comer salada num restaurante). Não frequento o ginásio (pecado gravíssimo na sociedade actual). Até hoje, fui apenas duas vezes à manicure, porque pareço uma “agarrada” que não consegue deixar de roer as unhas, principalmente quando estou a rever o que escrevi ou a inventar alguma – terrível, terrível, terrível! Gosto de roupa, sapatos e maquilhagem, mas não faço listas de “peças tendência” a adquirir antes que a estação acabe sob pena de me sentir miserável e ostracizada do mundo da moda. A minha peça de roupa favorita, na verdade, são as sweats dele, surrupiadas e ainda a cheirar a 212 men. Agora, não me toquem no cabelo! Eu posso ter as unhas roídas, estar a precisar de fazer uns agachamentos, e não aguentar mais de uma hora sobre uns saltos agulha, mas tenho um carinho especial pelo meu cabelo, e se ele estiver longo, brilhante, bem tratado e esvoaçante, sinto-me bem até num saco de serrapilheira. Mimo-o com máscaras hidratantes, aparo-lhe delicadamente as pontas com a paciência de um ancião japonês a podar as ramadas de um bonsai para que cresça forte e saudável, tive um ataque de nervos quando encontrei os três primeiros cabelos brancos (quando me estou a lixar para as estrias), e não faço cortes radicais há anos. Pensando bem, até acho que só os fiz na primária, quando as meninas usavam o cabelo muito curto, e ainda punham umas fitas largas na cabeça.
Contudo, no dia 31 de Dezembro, a cinco horas de 2015 chegar ao fim, olhei-me ao espelho, peguei numa tesoura e num punhado do meu amado cabelão e num impulso avassalador podei, radicalmente, mais de dez centímetros às ramadas do meu “bonsai”.
Ao início, diverti-me. Tive que me controlar para não cortar mais, e foi aí que percebi os ímpetos de Eduardo Mãos de Tesoura da maior parte das cabeleireiras. Girei a cabeça de um lado para o outro, e senti falta dos cabelos a baterem-me nas costas. Imaginei a reacção dele, amante ainda mais fervoroso deles, que eu. Talvez se estivesse em casa, eu não os tivesse cortado. Talvez se irrompesse pela porta a perguntar-me se queria um copo de verde gelado enquanto fazia as gambas à la guilho, evitasse aquela ceifa impiedosa. Mas ele não estava, nem ia estar nas próximas horas, porque não é por o ano mudar e os fogos de artifício rebentarem nos céus e toda a gente brindar com champanhe, que há quem deixe de sofrer, de estar doente, de precisar de cuidados de saúde e da ajuda de um ventilador para respirar e da argúcia e empenho profissional de alguns para que o seu coração não deixe de bater… E pela primeira vez, não íamos estar juntos numa passagem de ano, e eu acabara de cortar quase metade do cabelo. Que se lixe, é só cabelo! Talvez aquela fosse mesmo a minha vontade de começar o novo ano com alguma mudança visível, palpável, imediata. Fosse ela qual fosse e por muito fútil que parecesse.
Faltavam quinze minutos para a meia noite. As passas foram distribuídas, a garrafa de champanhe esperava já em cima da mesa, e as tampas dos tachos foram entregues às crianças que as olhavam com estranheza. “Isto é para quê?”, perguntaram, como se os adultos tivessem ensandecido. “Para dizermos adeus ao ano velho e recebermos o novo!”. “Mas eu tenho pena do ano velho, coitadinho!” – lamentou-se ela, já com os olhos brilhantes de sono e pronta para começar a chorar. E eis que ouvimos as chaves na porta. E eis que o Baltazar corre para o corredor, como se fosse noite de Natal, novamente, e o velho das barbas lhe fosse trazer um cabaz de Natal, só para ele. E eis que o ano velho nos trouxe a última das surpresas e única coisa que nos faltava, para acabarmos em grande e felizes. E depois de um abraço apertado, e de se agarrar à garrafa de champanhe para a abrir e brindar 2016 connosco, e de bater os tachos e panelas com os filhos, olhou para mim, estupefacto, e finalmente perguntou, como se só tivesse percebido naquele momento: “O que fizeste ao cabelo?!”.
Passado duas horas, lá superou o choque e aceitou, reconhecendo que até estava giro e que eu ficava linda até com o cabelo da Maria José Valério – mas eu vi uma sombra de viúvo das longas pontas cortadas, a pairar-lhe sobre a cabeça.
Uma pessoa não pode levar a vida toda com cabelos à Brooke Shields na Lagoa Azul, caramba!

Partilha!Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Pin on PinterestShare on LinkedInEmail this to someoneBuffer this page

2 Comments

  1. Apesar de os meus não baterem nas costas, já tive vontade de fazer o mesmo… mas tenho a certeza que o resultado seria um desastre e teria que ir obrigatoriamente à cabeleireira compor… o que me levaria a ficar sem mais cabelo, tal é a minha habilidade :) mas adoro a atitude! :)

    Reply
    • Obrigada Rabiscos, mas de certeza que não se saía assim tão mal!Às vezes, uma tesourada de irreverência é mesmo o que precisamos. Mesmo que fique ligeiramente irregular 😉
      Beijinho

      Reply

Leave a Comment.