17 de Março

Não sei quando começámos a namorar. Lembro-me de uma tarde, em que deitados na sua velha cama de adolescente, ele me perguntou se queria ser sua namorada. Ri-me, porque nessa altura palpitava-me que já não éramos só amigos, ou eu nunca estaria deitada ali, naquela tarde quente de Verão, em trajes menores (ou ausência dos mesmos).
Também não recordo o dia exacto em que fomos viver juntos. Até porque ele mudou-se primeiro, e eu fui lá passando uma noite, e duas, e depois levei uma mochila e a escova de dentes e lá disse aos meus pais “vocês sabem que a ideia é eu mudar-me definitivamente, certo?”. Certo. Carecas de o saber, estavam eles!
Também não existem datas comemorativas de noivado ou casamento, “eventos” aos quais sempre fugi a sete pés, não me perguntem porquê que nem eu própria o sei explicar (pelo menos de forma sensata e racional).
Contudo, recordo a noite em que, apesar de meros conhecidos com amigos em comum, ficámos a conversar sozinhos, horas a fio, numa recôndita mesa de discoteca barulhenta. A mesma noite em que eu, bicho do mato assumido, rosnadora convicta de rapazes atrevidos, renitente em andar nos amassos só por desporto e a colecionar curtes supérfluas e momentâneas, dei por mim a ser atraída para aquela pessoa com o mesmo magnetismo com que um íman é puxado para uma porta de frigorífico, uma criança é atraída para uma loja de brinquedos ou o Dom Baltazar é hipnotizado por uma posta de bacalhau. Pronto, a metáfora não é a mais romântica mas é bem perceptível.
Essa foi a noite em que percebemos que, no meio de tanta gente, havia alguém em especial com quem queríamos conversar madrugada fora, e com quem podíamos partilhar uma bebida licorosa azul intragável, e com quem era impossível repudiar o apelo ao amasso, sem que isso suscitasse em mim o medo do arrependimento do dia seguinte. Essa foi a noite em que nos descobrimos e demos o nosso primeiro beijo e ficámos a pensar que talvez pudéssemos dar outros, noutro dia, depois das aulas, quem sabe… até hoje.
Essa noite foi a 17 de Março, há uns longos mas emocionantes dezasseis anos. E tem sido uma aventura do caraças!

 

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