11/9 e a magnólia

FILE - In this Sept. 11, 2001 file photo, people covered in dust walk over debris near the World Trade Center in New York. (AP Photo/Gulnara Samoilova)

Sei que tinha dezasseis anos. Sei que estava sozinha em casa, a pintar o meu quarto. Não sei porque decidi fazê-lo no fim do Verão, a poucos dias do recomeço das aulas, mas lembro-me que a cor da tinta tinha o garboso nome de “magnólia”.
Gabo a criatividade a quem tem a proeza de atribuir nomes diferentes a tantas cores e seus diferentes tons. O que para nós é um básico azul, azul claro ou azul escuro, para eles é “azul lunar”, “azul sublime”, “azul trovão”, “azul Índico”, “azul Atlântico”. Não é creme, e sim “areias do deserto”. Não é apenas branco, e sim “branco brisa polar”. Não é um simplório roxo, e sim “púrpura ametista”. A cor com que tingira as minhas paredes não era salmão pálido e anémico quase invisível, e sim “magnólia”. Uma “magnólia” serena, feminina e primaveril que teria sido mais dignificada se não tivesse juntado tanta água na tinta, confesso. O meu pai ia gozar comigo durante uma semana e perguntar-me “n” vezes porque era tão teimosa e não esperava que ele tivesse tempo para me pintar o quarto, como “deve ser”. Era o que faltava! Até parece que não sabem que o quarto de um adolescente é território sagrado cujas interferências na administração raramente são permitidas devido à presunção que os mesmos têm de que sabem tudo e se desenrascam muito bem sozinhos. Quem pintava o meu quarto, era eu. Além disso, as pinceladas aleatórias e falhas visíveis por onde o rolo da tinta tinha passado, eram todas propositadas, para dar um ar mais… irreverente.
Lembro-me de fazer uma tosta mista para o almoço, de pousar um copo de sumo num dos degraus do escadote e sentar-me no sofá, a fazer zapping, até parar na notícia de um incêndio num arranha-céus em Manhattan. Mas antes mesmo de compreender o que se estava a passar, vejo um avião chocar contra a segunda torre, deixando-me petrificada diante da televisão. Sei que na altura me senti muito confusa. Pensei que aquilo não podia ser verdade. Que devia ser um trailer de mais um filme de Hollywood carregadinho de efeitos especiais e explosões, e que o Bruce Willis ia aparecer a qualquer momento para salvar o dia. Mas não apareceu. E quando avanço para o canal seguinte, deparo-me com a mesma imagem, com a gritante legenda “Notícia de Última Hora”. O mesmo se passava na RTP, na SIC, na TVI, na BBC, na SkyNews… Fiquei gelada. Aquilo estava mesmo a acontecer. Era real. Eu acabara de ver um avião ser deliberadamente mandado contra uma torre no centro de Nova Iorque, numa manhã que prometia ser igual a todas as outras.
Lembro-me de pegar no telefone e de ligar à minha mãe, com a voz embargada de comoção. Na altura, quando lhe contei o que tinha acabado de ver na televisão, ela não percebeu muito bem. Achou que eu estava a exagerar e depois perguntou se eu já tinha almoçado e dado cabo das paredes todas do meu quarto. “Não estás a perceber! Estão… a atacar a América! Está a dar em todos os canais de televisão!!!” – exclamei, impaciente, tentando fazê-la entender a dimensão daquilo que eu estava a ver, em directo. Lembro-me do silêncio, do outro lado da linha, e de ouvir alguém que acabara de entrar no escritório, tão aflito quanto eu, explicar o que se passava no outro lado do Atlântico.
Nas horas seguintes não consegui tirar os olhos da televisão. Não quis mais saber das paredes cor “magnólia”, ou de arrumar o quarto, e já desistira de comer a tosta fria e seca que se recusava a passar pela garganta. Estava demasiado chocada com todo aquele cenário. Com o desespero das pessoas que choravam nas ruas, incrédulas com o que se estava a passar. Com os corpos que se atiravam das janelas, parecendo flutuar durante a queda, quase nos fazendo indagar se eram seres-humanos ou simples destroços de guerra. Dei por mim a questionar, se fosse eu, o que faria? E o aperto no estômago intensificava-se. Vi então as torres colapsarem, vi bombeiros e civis saírem da nuvem de pó, como se de estátuas de pedra se tratassem, vi a Manhattan que tanto desejava conhecer, submersa num inferno que nunca me passou pela cabeça que pudesse chegar até nós. E à medida que as informação iam chegando, o pânico disseminava-se pelo mundo ocidental.
Estaria a mentir se dissesse que naquele dia não me senti um bocadinho americana, que não me coloquei na pele daquelas vítimas, das famílias destroçadas, dos nova-iorquinos que nunca conjecturaram que algo assim pudesse ocorrer na sua Big Apple. Senti que o mundo perfeito e inabalável que muitos julgávamos habitar, não existia mais. E talvez nunca tivesse existido. A sensação de que tudo o que julgamos certo e seguro não passa de uma ténue ilusão que de um momento para o outro corre risco de se desmoronar, acompanha-me desde esse dia. O dia em que o mundo mudou e em que passámos a familiarizar-nos com o terror. O 11 de Setembro foi a perda da inocência, da ingenuidade, foi o romper da bolha de segurança onde muitos julgávamos viver.
Contudo, o mundo parece não ter melhorado muito, desde então. Todos os dias podemos ver algumas das suas tonalidades mais obscuras. Aquelas que num catálogo de cores não poderiam ter outros nomes que não “treva”, “medo”, “opressão”, “ódio”, “ira”, “corrupção”, “morte”, “desolação”.
Porém, devemos continuar a optar por pintar a vida com “verde esperança”, “branco paz”, “vermelho alegria”, e muita, muita “magnólia”. “Magnólia” serena, feliz e primaveril, como a que pintei as minhas paredes, naquele fatídico dia. Porque mesmo com erros, defeitos e pinceladas aleatórias, quem pinta o nosso mundo, somos nós, e não há medo que nos possa privar disso.

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1 Comments

  1. Também me lembro bem deste dia. Do que estava a fazer quando vi na televisão. Eu, numa pastelaria, com o meu grupo de amigas de sempre, assistimos juntas na tv… :/
    Beijinhos

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