Silêncio

Marta mértola casa xico

Há momentos na vida em que gostaríamos de pedir licença para sair da carruagem que nos leva pelos carris da rotina. Saltarmos mesmo com o comboio em andamento, só para contrariarmos o percurso, irmos num passo mais brando, a nosso bel-prazer, com tempo para respirar, apreciar a paisagem, parar onde quisermos, termos longos diálogos com a inquietação dentro de nós ou simplesmente tentar encontrar o silêncio na nossa mente. O … Ler mais

Porto de abrigo

porto seguro

Assim que entrei pousei-a no chão e apressei-me a trancar a porta e a fechar todas as portadas das janelas para que nada do exterior ousasse penetrar o nosso porto de abrigo.
Após o último trinco encostei-me a uma parede da sala, e extenuada deixei-me deslizar por ela até ao chão. Durante um momento não consegui falar, lutando para abrandar a respiração. Depois vi que a minha filha estava parada … Ler mais

“Passarinho”

Passarinho

Parte 8

Assim que entrei no átrio, tossi convulsivamente, sentindo as primeiras golfadas de ar queimarem-me por dentro. Despi imediatamente o casaco e o cachecol impregnados de pó lacrimogéneo e mandei-os para um canto do vestíbulo. Corri para a casa de banho e em segundos um travo ardente e amargo chegou-me à boca, obrigando-me debruçar sobre um dos lavatórios mínimos do infantário para vomitar a pimenta que me queimou o … Ler mais

Chacais

chacais

Parte 7

Avancei na direcção do bengaleiro e tirei o casaco e o cachecol preto, e então ouvi algo bater na porta, fazendo o sino tilintar. Escondi-me de imediato atrás de uma estante, paralisada de medo, esperando que um grupo de chacais entrasse por ali adentro, mas nada aconteceu. Até que ouvi uma batida, novamente. E mais outra. Depois já não era só na porta, mas também no letreiro e … Ler mais

“Eles vêm aí!”

eles vêm aí

Parte 6

– Têm que tirar daqui as crianças, agora. – sussurrou, claramente ansiosa.
Franzi a testa e olhei para as suas mãos trémulas.
– Porquê?
– Eles vêm aí! Vi agora nas notícias.
Ergui a sobrancelha, suspeitando que aquilo se tratava de mais um dos seus devaneios. Hoje estava marcada uma marcha pela paz e ela ficava sempre nervosa com eventos que reunissem multidões.
– “Eles” quem?
– Foi … Ler mais

A livraria

livraria6

Parte 5

Todas as manhãs prendia a pasteleira amarela ao poste no passeio e abria a porta vermelha envidraçada que se via em qualquer ponto da rua, gritando a nossa presença. Nunca me cansaria de ser recebida pelo tilintar do sino por cima da minha cabeça, nem do cheiro do soalho envernizado que rangia a cada passada dada, evidenciando o silêncio no interior. O silêncio que fluía por entre os … Ler mais

Ou eu não me chamasse…

A inércia

Parte 4

Olhei-me ao espelho. Passei levemente o lápis preto nos olhos, o bálsamo de baunilha nos lábios e prendi o cabelo num rabo-de-cavalo. Enquanto ajeitava o cachecol em torno do pescoço, olhei uma última vez o papel amarelo no frigorífico. À medida que me preparava para sair de casa, sentia cada vez mais a nuvem negra a pairar sobre a minha cabeça. Aliás, era isso que “aquele que tem … Ler mais

A inércia

A inércia2

Parte 3

Como todas as manhãs, vi o noticiário enquanto tomava o pequeno-almoço encostada à bancada. E não havia uma manhã em que não me apetecesse desligá-lo a meio, optando pela ignorância, pela displicência de não querer saber, de não me importar. Contudo, bastava-me olhar para a minha filha, tão inocente e tranquila a empurrar com o dedo as bolinhas de arroz estufado para cima da colher, para saber que … Ler mais

No número 7 da Rua das Magnólias

couple new home

Parte 2

Este despertar era vivido em Serena, no número 7 da Rua das Magnólias, na casinha branca de portadas azuis com uma árvore no passeio a que chamávamos de nossa – a mais frondosa magnólia da zona, e também a única. Uma memória solitária da exuberante fileira de árvores com flores brancas, rosas e roxas que dera o nome àquela rua, uma das mais bonitas da Serena de outrora. … Ler mais

O despertar

mãe e filha cinza capa

Parte 1

Uma mãozinha percorreu-me suavemente o rosto.
O ténue perfume a mel e amêndoas doces invadiu-me os sentidos, fazendo-me sorrir diante da sensação familiar de conforto e bem-estar.
– Acoda mamã! – tilintou a voz de fadinha.
Abri os olhos e vi os seus, doces e ímpares cravados em mim. Um azul e o outro avelã, numa dualidade bicolorida que não deixava ninguém indiferente. Sabia-o porque continuava a fascinar-me … Ler mais